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Criptomoedas sem ilusões: volatilidade extrema, lobby e perigo sistêmico
Mesmo com desregulamentação e apoio político, o Bitcoin e outros falham como moeda, reserva de valor ou proteção
Há um ano, o presidente mais pró-criptomoedas da história dos EUA acabava de regressar ao poder após bajular criptoinvestidores de varejo sem noção e receber apoio financeiro maciço de insiders semicorruptos do setor. A segunda vinda de Donald Trump deveria ser uma nova aurora para as criptomoedas, levando vários evangelistas a prever que o bitcoin se tornaria o “ouro digital”, atingindo pelo menos US$ 200 mil até o final de 2025.
Como prometido, Trump eliminou a maioria das regulamentações sobre criptomoedas. Ele também assinou a Lei de Orientação e Estabelecimento da Inovação Nacional para Moedas Estáveis dos EUA (Genius, na sigla em inglês); pressionou pela Lei de Clareza do Mercado de Ativos Digitais (Clarity, na sigla em inglês); lucrou pessoalmente com negócios obscuros com criptomoedas nacionais e estrangeiras; promoveu sua própria moeda meme inútil; perdoou criminosos do mundo das criptomoedas que supostamente ajudaram organizações terroristas; e ofereceu jantares privados para especialistas em criptomoedas na Casa Branca.
Além disso, as criptomoedas deveriam se beneficiar de vários riscos macroeconômicos e geopolíticos, como o aumento da dívida e dos déficits dos EUA e de outras economias avançadas; a desvalorização do dólar e de outras moedas fiduciárias; novas guerras comerciais; e tensões crescentes entre EUA e Irã, China e vários outros países. De fato, o ambiente de risco elevado ajuda a explicar por que o ouro subiu mais de 60% em 2025.
Contudo, o “ouro digital” caiu 6% em 2025. No momento da redação deste artigo, o bitcoin está 35% abaixo do seu pico de outubro, abaixo do valor que tinha quando Trump foi eleito, e as moedas meme $TRUMP e $MELANIA caíram 95%. Sempre que o ouro disparou em resposta a turbulências comerciais ou geopolíticas ao longo do último ano, o bitcoin caiu de modo acentuado. Longe de ser uma proteção, é uma forma de alavancar o risco, mostrando forte correlação com outros ativos de risco, como ações especulativas.
Chamar o bitcoin ou qualquer outro veículo criptográfico de “moeda” sempre foi uma farsa. Não é uma unidade de conta, um meio de pagamento escalável nem uma reserva estável de valor. Embora El Salvador tenha tornado o bitcoin moeda corrente, ele representa menos de 5% das transações de bens e serviços. A criptomoeda nem mesmo é um ativo, pois não tem fluxo de renda, função ou uso industrial ou no mundo real (diferentemente do ouro e da prata).
Dezessete anos após o lançamento do bitcoin, o único “app definitivo” em criptomoedas é a stablecoin: uma versão digital da moeda fiduciária tradicional, que o setor financeiro e bancário já digitalizou há décadas.
Sim, ainda há dúvidas se o dinheiro digital e os serviços financeiros devem estar numa blockchain (livro-razão distribuído) ou numa plataforma tradicional de livro-razão duplo. Mas 95% das moedas e serviços digitais “blockchain” são blockchain só no nome.
São privados em vez de públicos, centralizados em vez de descentralizados, autorizados em vez de não autorizados e validados por um grupo pequeno de autenticadores de confiança (como nas finanças e na banca digitais tradicionais) em vez de por agentes descentralizados em jurisdições sem Estado de direito.
As verdadeiras finanças descentralizadas nunca ganharão escala. Nenhum governo sério – nem mesmo o governo Trump – jamais permitirá anonimato total das transações monetárias e financeiras, porque isso seria uma bênção para criminosos, terroristas, Estados delinquentes, atores não-estatais, traficantes de seres humanos, vigaristas diversos e sonegadores de impostos.
Além disso, como as carteiras digitais e bolsas regulamentadas devem estar sujeitas às regras padrão contra lavagem de dinheiro e de conhecer o cliente, não está claro nem mesmo se os custos de transação por meio de “blockchains” privadas e autorizadas são mais baixos– especialmente agora que os livros contábeis financeiros tradicionais melhoraram com liquidação em tempo real e ferramentas de compensação mais rápidas.
O futuro do dinheiro e dos pagamentos será marcado por uma evolução gradual, e não pela revolução prometida pelos criptogolpistas. A última queda do bitcoin e de outras criptomoedas reforça ainda mais a natureza altamente volátil dessa classe de pseudoativos.
Quanto à Lei Genius, agora que preparou o terreno para outra experiência destrutiva em operação bancária livre, como a que terminou em lágrimas durante o século 19, ela pode muito bem ser lembrada como a Lei do Idiota Imprudente.
De acordo com a lei, stablecoins não são reguladas como bancos restritos (o que significa que os depósitos e pagamentos são separados de empréstimos e investimentos mais arriscados), nem têm acesso aos benefícios de empréstimo de última instância ou seguro de depósitos fornecidos pelos bancos centrais.
Assim, bastaria que algumas maçãs podres em Estados pseudolibertários dos EUA investissem mal seus ativos ou colocassem seus depósitos em instituições fracas, como o Silicon Valley Bank, para incitar o pânico e desencadear uma corrida aos bancos.
Como no século 19, a abordagem atual dos EUA – graças à venalidade e ignorância de Trump e ao tráfico de influência corrupto da indústria de criptomoedas – é uma receita para a instabilidade financeira e econômica.
A disputa recente entre bancos reais e a indústria de criptomoedas sobre a Lei Clarity é outro exemplo de Trump não entender os fundamentos monetários e financeiros. Não tem a ver com bancos querendo manter seu quase monopólio sobre transações monetárias.
Num sistema bancário de reserva fracionária, os bancos estão envolvidos tanto em pagamentos quanto na criação de crédito por meio da transformação do vencimento de depósitos de curto prazo em empréstimos e créditos de longo prazo. Isso significa que eles fornecem um bem semipúblico muito valioso.
Claro, depósitos de curto prazo não pagam juros porque são quase equivalentes à moeda. Porém, a indústria de criptomoedas está pressionando pela liberação do pagamento de juros para stablecoins – direta ou indiretamente por meio de bolsas – , o que minaria os alicerces do sistema bancário que todos nós consideramos natural.
Portanto, devemos mudar radicalmente nosso sistema financeiro para separar os pagamentos da criação de crédito (por meio de bancos restritos para pagamentos e novos fundos emprestáveis de instituições financeiras para crédito) ou proibir as stablecoins de pagar juros e desintermediar os bancos.
Esta é uma questão de estabilidade política e financeira, e poucas são tão sérias ou sensíveis. Jamie Dimon, presidente e CEO do JPMorgan Chase, com razão vem alertando sobre as mudanças que a indústria de criptomoedas deseja, e Brian Armstrong, da Coinbase, não poderia estar mais errado ao descartar tais preocupações com indiferença.
Se Trump tem algum assessor que não esteja corrompido pelo dinheiro criptográfico, espera-se que ele possa ensiná-lo como funciona o sistema bancário antes que ele permita que seus interesses pessoais destruam seus alicerces. Ouviu, secretário do Tesouro Scott Bessent?
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